Escrito por Ana Celeste de Araújo Pitiá (2012) - anaceleste2006@gmail.com  

 

As práticas de atenção psicossocial estão presentes e atuantes nos diversos setores de trabalho, desde a saúde, passando pela educação, repercutindo na cultura das pessoas que convivem em sociedade. São tributárias de diferentes movimentos sociais e científicos em vários campos teóricos, articulados de forma complexa e exigindo incursões por teorias que buscam contemplar sua complexidade, a partir da análise política de instituições, da análise institucional e da constituição subjetiva das pessoas.

 

Incluem também elementos de análise da história dos principais movimentos institucionais e internacionais no campo da saúde mental/psiquiatria, que repercutidas no contexto brasileiro, contribuem com o processo da reforma psiquiátrica, historicamente deflagrado a partir da década de 70, pelas transformações das práticas profissionais, inter-relacionadas com os sujeitos atendidos no contexto dos serviços psiquiátricos, levando-se em conta a psiquiatria de setor e a psicoterapia institucional na França; a antipsiquiatria e as comunidades terapêuticas na Inglaterra; a saúde mental comunitária nos EUA e o movimento democrático da desinstitucionalização na Itália (Costa-Rosa, 2000). Consistentemente, formam assim o arcabouço teórico-prático pelos quais surge a prática clínica do Acompanhamento Terapêutico (AT). 

 

Por essa, novos sabores serão degustados, assim como novas cores serão vistas no cenário dos atendimentos prestados ao público-alvo que podem se servir de sua ação, que vão desde os portadores de transtornos mentais e deficiências, além de pessoas com problemas gerontológicos, ou mesmo para aqueles que, por algum acidente no percurso de suas vidas, se deparem com dificuldades prejudiciais à continuidade dos seus projetos de vida e assim necessitem da figura dos acompanhantes terapêuticos (at) como facilitadores do resgate cidadão de suas vidas.

 

Deixando de se ocupar apenas com a doença, com a prescrição de medicamentos e aplicação de terapias, os profissionais at(s) se constituem atuantes políticos-clínicos no campo da atenção psicossocial, passando a se ocupar dos sujeitos que precisam de tratamento integral, oferecendo a qualidade do cuidado necessário, com respeito às subjetividades envolvidas. Assim, os at(s) passam a ocupar-se também do cotidiano, do tempo, do espaço, do trabalho, do lazer, do ócio, do prazer e da organização de atividades conjuntas entre acompanhantes/acompanhados durante o processo de atendimento.

 

Em consonância com esse processo, que também diz respeito à reabilitação psicossocial (Pitta, 2001; Amarante, 1999), espera-se que os profissionais at(s) trabalhem enfatizando as partes mais sadias e as potencialidades dos sujeitos acompanhados, mediante uma abordagem compreensiva quanto aos seus contextos políticos-históricos, oferecendo vários suportes: vocacionais, recreacionais, sociais, residenciais, educacionais, ajustando-se às demandas singulares de cada acompanhado e articulando-se em Rede com outros profissionais que possam estar envolvidos no processo de tratamento.

 

Dessa maneira o “fazer AT” procurará experimentar os vários “sabores” pelos quais se verá envolvido nas suas degustações e andanças com seus acompanhados, a partir do momento em que, por meio de sua atuação, deverá se voltar integralmente para essa pessoa como foco, juntamente à sua família, desafiado ao despojamento de si e ao desalojamento da própria condição categórica profissional.

 

Assim, para que trabalhe em Rede, o at precisa aceitar o convite, pelo qual ele próprio inicie-se colocando-se em Rede e trabalhando nas tramas das tantas diversidades bio-sócio-histórico-culturais existentes!!


E assim deixamos uma pergunta para reflexão e possível diálogo: e ai, quando o AT vai cair na Rede?

 

Bibliografia:

 

AMARANTE, P. Manicômio e loucura no final do século e do milênio. In: FERNANDES, M.I.(Org.). Fim de século: ainda manicômios? São Paulo: IPUSP, 1999. p. 47-56.

COSTA-ROSA, A. O modo psicossocial: um paradigma das práticas substitutivas ao modo asilar In: AMARANTE, P. (Org.). Ensaios: subjetividades, saúde mental, sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2000. p.141-68.

PITTA, A.M.F. O que é reabilitação psicossocial no Brasil, hoje? In: ______. (Org.). Reabilitação psicossocial no Brasil. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 2001. p.19-26.